Gráfico crescente
Sustentabilidade

O desafio da gestão da água no mundo atual

O acesso e a gestão da água no mundo tem sido alvo de conflitos desde sempre, ou mais precisamente, desde 8.000 a.C. quando a humanidade começou a cultivar alimentos. A disputa por este recurso, escasso em muitas regiões do planeta, é tão antiga que está na origem de uma palavra utilizada ainda hoje para designar a intolerância e a ausência de convivência pacífica entre homens.

Rivalidade – segundo apontou um relatório do Worldwatch Institute, denominado “O Estado do Mundo” – deriva do Latim ‘rivalis’ e significa “aquele que usa o mesmo rio que outrem”.

Sobre a água, vale lembrar o que afirmou a organização Sustainable Development International (2005): “Há fontes alternativas de energias. Não existem alternativas à água”. E mesmo com uma fórmula química tão simples, ainda não foi possível desenvolvê-la artificialmente.

Produzir cada vez mais com menos recursos hídricos, permitir a universalização do acesso à água potável e serviços de saneamento e criar mecanismos políticos e de mercado que proporcionem a governança compartilhada dos recursos hídricos, são alguns dos desafios para assegurar a plena disponibilidade da água.

Os dados atuais são alarmantes! A produção de uma tonelada de grãos requer 1.000 toneladas de água e, até 2050 estima-se que poderá não haver mais água suficiente para produção da comida para atender a população mundial. E, segundo projeções, seremos em torno de nove bilhões de habitantes, três bilhões a mais do que hoje.

No cenário mundial, o Brasil é um dos campeões em desperdício. A porcentagem de perdas, provocada por vazamentos e ligações clandestinas, alcança 40%. Essa quantidade é suficiente para abastecer 35 milhões de pessoas ao longo de um ano. Nos países desenvolvidos, a média de perdas oscila entre 5% e 15%.

Estes são apenas alguns exemplos de como se utiliza a água de forma pouco eficiente. Vamos a alguns conceitos que tem auxiliado na otimização do uso da água.

Água virtual

A água utilizada, direta ou indiretamente, na produção de um artigo agrícola ou industrial tem sido modernamente conceituada como ‘água virtual’. É um indicador da água que será necessária no processo produtivo de algo.

Em um processo produtivo, parte dos recursos hídricos empregados pode se transformar em efluente industrial direcionado a mananciais. Outra parcela pode ser reciclada naturalmente por meio da evapotranspiração das plantas. Ainda, outra pode permanecer no produto.

Jatos de água molhando plantação

O cálculo relacionado à água virtual é essencial, pois através dele é possível verificar a pegada hídrica (impacto ambiental em termos hídricos), custos de fabricação de bens e serviços e alternativas para reduzir o consumo de água nos processos produtivos.

Ao quantificar a água virtual presente na produção de um determinado bem de consumo é possível realizar um inventário hídrico de cada etapa do processo, até se obter o produto final. Com o inventário hídrico é possível “trabalhar” cada uma das etapas para reuso, reaproveitamento ou redução de consumo da água.

Em síntese, a água virtual é o total do líquido empregado desde o início da produção até o ponto final de venda.

Cobrança pelo uso da água

Instrumento de gestão da Política Nacional de Recursos Hídricos, a cobrança pelo uso da água integra o Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SIGRH), instituído por meio da Lei Federal n° 7.663/91. Esse mecanismo se baseia nos conceitos de “usuário pagador” e do “poluidor pagador”, adotados com o objetivo de combater o desperdício e a poluição das águas, de modo que quem desperdiça e polui, acaba pagando mais por isso.

No entanto, a cobrança pelo uso começa de fato a ser trabalhada no Brasil com a criação da Agência Nacional de Águas (ANA), fundada a partir da Lei Federal n° 9.433/97, que criou o Sistema Nacional de Recursos Hídricos.

A cobrança da água é um pagamento pelo uso de um bem público e consiste em receita originária de um bem de Estados visando estimular o uso racional e arrecadar recursos para a recuperação e gestão da água no mundo.

Em outros países, nos quais já vigora lei semelhante, como França, Inglaterra e Alemanha, as empresas que captam água diretamente dos rios a utilizam de forma mais eficiente.

Um exemplo é o da empresa Merck Sharp & Dohme, localizada na região de Campinas, e que paga pela captação da água do rio Atibaia, que é um rio controlado pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) do Estado de São Paulo.

No último ano, a empresa alcançou uma economia da ordem de 19% no consumo total na fábrica a partir da eliminação de desperdícios e reutilização dos recursos hídricos. “A água é importante não só para a atividade produtiva, mas também para a população. Por isso, é adequado que quem faz uso desse recurso pague por ele”, afirma Valéria Madeira, gerente de segurança e meio ambiente da Merck Sharp & Dohme.

Água limpa e saneamento

Mãos abertas com água caindo

Segundo este Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS), cujo tema é água limpa e saneamento, até 2030 devemos alcançar o acesso universal e equitativo à água potável, segura e acessível para todos.

A preocupação com a existência de água potável e segura para todos é o centro desse ODS. Indissociável desta temática é a oferta de saneamento e higiene, uma vez que a falta destes pode levar à contaminação do solo, de rios, mares e fontes de água para abastecimento. São necessários marcos institucionais para favorecer a participação social, para controle do uso da água e monitoramento da proteção do meio ambiente.

Quer saber mais sobre como sua empresa pode economizar esse insumo e ainda lucrar? Leia também quais são os 5 desafios para aplicar um bom programa de captação de água na sua empresa.

“A gestão da água é por definição a gestão de conflitos”.
Worldwatch Institute, 2005

Benyamin Fard Benyamin Fard
CEO da Biovita.
Iraniano radicado no Brasil, é empreendedor serial e representante do Stanford Research Institute no Brasil. Graduado em Engenharia Elétrica, com MBA Internacional em Gestão Ambiental (UFPR) e Mestrando em Engenharia e Gestão do Conhecimento (UFSC).

Acredita que a resiliência organizacional é resultado da inovação sustentável, razão que o faz entusiasta por estes temas em todas as suas formas, e em especial quando lideradas por empreendedores através de suas startups.

É músico autodidata apaixonado por rock progressivo, ávido pesquisador de temas ligados à filosofia, história e quântica. É também esposo e pai de dois filhos.